Círio de Nazaré: 3 provas de como a fé e o futebol andam juntos em Belém do Pará
- Rui Guilherme Filho
- 5 de out. de 2023
- 8 min de leitura
Entre promessas de acesso ou não-rebaixamento, a assistência aos romeiros, a maior procissão católica do mundo movimenta as maiores paixões do Futebol Paraense.

No próximo domingo (08), mais de 2 milhões de pessoas vão às ruas de Belém do Pará para celebrar, pedir ou agradecer as bênçãos e os milagres de Nossa Senhora de Nazaré em mais uma procissão do Círio, considerada a maior manifestação católica do mundo e uma das grandes e principais manifestações religiosas e culturais da região norte do Brasil.
Aí você se pergunta: “Por que estou lendo isso em um site voltado ao esporte e o que isso tem a ver com o tema?”, a resposta que darei é TUDO! Pois, tudo que envolve o futebol, principalmente o clássico entre Remo e Paysandu, tem a crença em Nossa Senhora de Nazaré no meio, e vou enumerar diversos casos de como a fé mariana se tornou um pilar importante na cultura esportiva do Pará (e até fora dela). Vem comigo!
1 - A promessa e o agradecimento a Maria pelas vitórias:
Por mais que atualmente o mercado da bola tenha um acréscimo maior de atletas ligados ao protestantismo, ainda é muito forte pedir a Nossa Senhora de Nazaré a vitória, o título, ou a classificação de um time em um campeonato. E isso é cultural, seja entre os elencos dentro de campo, e claro, entre a torcida. Dois belos exemplos dessa influência religiosa cito em principais momentos, tanto de Remo, como do Paysandu.

Começo pelo Leão de Antônio Baena e sua principal conquista até então: A Série C de 2005, ano de seu centenário. Na final do campeonato contra o time do Novo Hamburgo naquele fatídico 20 de Novembro, muitos foram os pedidos a Nossa Senhora, primeiro pelo acesso a B, e depois ao título, ambos concretizados. Uma das principais cenas do título, foi a foto do elenco campeão, que além de contar com os atletas e a comissão técnica, o atleta Marquinhos Belém segura um banner com o cartaz das festividades do Círio daquele ano, onde em primeiro plano, estava a imagem de Nossa Senhora.
Um recorte importante dessa foto, é que o próprio Marquinhos fez uma promessa a Nossa Senhora, pois no mesmo ano, o Remo passou por momentos conturbados na temporada, com título do Campeonato Paraense perdido para o rival e a eliminação da Copa do Brasil para o Figueirense, urgindo uma desesperança na torcida. Por isso, o atleta pediu o acesso e o título azulino na terceirona, que na época era a última divisão nacional (A Série D surgiu em 2009). Tudo isso em meio a problemas com a sua saúde, pois passou por um problema grave no coração, onde durante o campeonato foi curado e conseguiu jogar a temporada quase toda, tanto que ao decorrer do mesmo ficou conhecido como “Coração de Leão”. Como forma de proteção e agradecimento, ele trazia o cartaz em campo, onde virou um dos símbolos da campanha.
Em entrevista ao Jornal O Liberal, Marquinhos afirma ainda ser bastante agradecido pelos milagres concedidos: “A Nossa Senhora de Nazaré fez parte desse meu processo de recuperação e cura e dar a volta por cima. Sempre usava o nome de Nossa Senhora de Nazaré, na igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro rezamos bastante para Nossa Senhora de Nazaré, e ela está sempre presente em minha vida”, disse o jogador ao O Liberal.
Outro momento do título, foi quando o repórter setorista da Rádio Clube do Pará, Paulo Caxiado, agradece ao vivo a Nossa Senhora a conquista do Brasileiro: “Podem comemorar, o Remo é Campeão Brasileiro de 2005, Obrigado minha santinha, Obrigado Nossa Senhora de Nazaré!!”, disse emocionado. A fala até hoje é lembrada pelos torcedores que ouviram a transmissão, além de virar um trecho de uma música comemorativa do acesso azulino.

Agora pelo lado azul-celeste, temos um elo de amor entre um treinador e Nossa Senhora, estamos falando do atual comandante do Paysandu, Hélio dos Anjos. Considerado um símbolo de tantas conquistas para os bicolores, entre eles o Parazão de 2020, Hélio virou devoto de Nossa Senhora de Nazaré e foi com a fé em Maria que guiou o Papão nas suas três passagens pelo clube. A devoção cresceu tanto, que atualmente, Hélio leva a padroeira dos paraenses na pele desde 2019, como forma de agradecimento ao trabalho feito no lobo.
Inclusive, quando voltou ao clube na temporada atual, Hélio citou a fé em Nossa Senhora, para primeiro sair da zona de rebaixamento, onde o clube estava na época, como para conseguir o acesso. O resultado? O time reagiu e atualmente está na fase quadrangular e com um pé na segundona. Aliás, por pura coincidência (ou por providência divina), o jogo que pode definir o acesso do Papão para a Série B, contra o Volta Redonda, irá ser no sábado do Círio (07), onde boa parte das homenagens a Maria ocorrem, principalmente a Trasladação, o Círio noturno, que ocorrerá no horário da partida.

Pelo lado da torcida, durante o ano todo, muitos torcedores chegam a levar terços e até imagens de Nossa Senhora, algumas até com mantos das cores dos clubes, para a arquibancada ou para o campo, pedindo a proteção da mãe durante as partidas. Mas na época do Círio, há muitas histórias de promessas envolvendo o futebol, que para alguns podem ser consideradas “inusitadas”, porém através das histórias, emocionam, como o caso de uma torcedora remista que levou uma réplica do Estádio Baenão como agradecimento pela conclusão da demorada reforma do mesmo em 2019, ou um outro torcedor que entrou de joelhos na Basílica-Santuário de Nazaré pelo Remo não ter sido rebaixado em 2018 (foto abaixo). Histórias que nem eu, que escrevo este artigo, consigo explicar, só a fé mesmo.

A influência do clube também ajuda durante a assistência na corda, por exemplo, quando um fornecedor de água encontra um semelhante que torce para o seu time e usa a camisa do mesmo no percurso, até o número de águas oferecidas para o ajudante dobra, essa história, inclusive já aconteceu com minha irmã durante a Trasladação, quando foi com uma camisa do Remo ajudar amigos na corda.
Ainda sobre assistência, todo ano há grupos de torcedores dos dois clubes, que assistem os romeiros que chegam na cidade a pé de diversos pontos do estado, oferecendo comida, massagem ou descanso dias antes da grande procissão em frente aos estádios. Toda essa “logística” é feita por meio de doações de torcedores e tem ampla divulgação na imprensa.

2 - Homenagens oficiais:

Assim como o Círio, o futebol está na veia do paraense e ambas andam juntas até mesmo institucionalmente. Curiosamente, as sedes sociais de Remo e Paysandu ficam no mesmo endereço: A avenida Nossa Senhora de Nazaré, ou como popularmente chamamos, Avenida Nazaré. E ambas as sedes são caminhos de boa parte das procissões marianas, inclusive a maior do domingo. Com isso, ambas realizam uma programação especial durante as procissões da Trasladação, e do Círio, com atrações musicais, queima de fogos e chuva de papel picado na passagem da berlinda.
Por mais que sua sede social não seja no mesmo endereço, a Tuna Luso Brasileira também faz homenagens tradicionais, principalmente no Traslado para Ananindeua, a primeira grande procissão dos três dias importantes da festa que tem a Avenida Almirante Barroso, onde fica o complexo da Águia do Souza, como uma das ruas do percurso.
Fora da grande procissão, a imagem peregrina, utilizada na festividade, visita as sedes, onde há uma Santa Missa e homenagens especiais em preparação a festa. Algumas possuem até oratórios com uma imagem e o manto com as cores do clube.

Pelo lado comercial, como parte da preparação da festa, os clubes também confeccionam camisas com a imagem de Nossa Senhora ou da procissão, com os escudos e cores oficiais, para a venda pública e a procura é grande, tanto que a Diretoria da Festa de Nazaré criou um selo oficial para estas camisas. Porém, como todo produto oficial, possuem preços altos, por isso, o lado popular também pesa, há versões não-oficiais também à venda, que utilizam escudos e até estampas diferentes para o uso nas procissões e o efeito também é o mesmo.
3 - O Círio e a Mídia Esportiva:

Claro, como bom admirador da imprensa e do jornalismo, não poderia deixar de trazer a relação da imprensa esportiva paraense com a grande festa. Citei o exemplo de Paulo Caxiado no primeiro tópico, mas não se resume apenas a isso. Sempre quando as festividades ficavam próximas, um personagem católico entre os elencos dos dois clubes aparecia nas matérias, e rendiam assunto em todas as plataformas dos grupos.
Um fato curioso é que isto aparece principalmente quando um dos clubes, como no atual caso do Paysandu, estão num período decisivo, tendo como locação, quase sempre, a Basílica-Santuário de Nazaré, levando eles a falar de suas promessas e esperanças ou após a conquista, os agradecimentos.
Um bom exemplo disso, é a matéria do Globo Esporte Pará com o atleta Leandrinho em 2012, onde costumava atravessar o campo de joelhos durante a campanha do acesso bicolor à Série B daquele ano e citava promessas à Nossa Senhora. Vale a leitura: https://ge.globo.com/pa/noticia/2012/10/devoto-da-virgem-de-nazare-leandrinho-cre-no-acesso-serie-b.html

Fora isso, quando se trata de Círio, não há divisão de setores, todos atuam, até mesmo os do esporte: Quem cobre jogos, como narradores, repórteres setoristas, dentre vários do ramo, participam das transmissões da procissão, como o caso de Edson Matoso, que por anos foi o âncora do Círio no SBT, Gilson Faria, Zaire Filho e André Laurent (foto), que também atuaram nas transmissões da TV Liberal/Globo e o mais recente, Ronaldo Porto, já falecido, que liderou por mais tempo na RBATV/Band, além de muitos outros que também atuam nas rádios belenenses e que também fazem a cobertura da festa.

Ainda sobre transmissões, encerro falando algo bem curioso sobre o Círio, que é super comum, e devo contar aqui: NADA, eu falei NADA, interfere as transmissões da grande procissão na TV Paraense. Nem mesmo um fato externo nacional de grande relevância, e principalmente, transmissões esportivas. A principal “vítima” das transmissões, eram quase sempre os Grandes Prêmios de Fórmula 1 quando tinham corridas exibidas pela manhã aqui no Brasil, por mais que o contrato exigisse exibição nacional, Globo e Bandeirantes abriam uma exceção para que não fossem exibidas as corridas para o estado do Pará nos segundos domingos de outubro, em detrimento do Círio.
Quando a F1 foi para a Band em 2021, aconteceu uma redenção: A emissora paulista gravou um compacto da corrida especialmente para a RBA exibir durante a tarde, coisa que não acontecia com a Globo e a TV Liberal. Por sorte, o Grande Prêmio do Catar, que acontece neste domingo, escapou do corte, pois a competição acontecerá ás 13h30, quando a procissão já havia chegado na Basílica.
Fora a Fórmula 1, em 2019, ocorreu um amistoso da Seleção Brasileira contra a Nigéria (foto), ás 9h da manhã do dia 13 de Outubro. Por mais que a seleção fosse querida pelos paraenses (e a prova foi o jogo contra a Bolívia no mês passado), nem ela foi capaz de mudar a grade. O Círio foi mais importante e todas exibiram a procissão na íntegra (ainda bem!). E o melhor de tudo: Tendo o Círio na TV, ninguém dá falta. Até porque é só uma vez ao ano mesmo.

Tudo isto que relatei neste artigo, mostra que a frase “Não é só Futebol” não é apenas uma utopia. Que futebol e fé andam juntos sim, e ainda bem que andam. Pois sem eles, não existiria o povo brasileiro, e principalmente, o paraense.
Se você leu esse artigo até o final, convido você a conhecer o Círio de Nazaré e o estado do Pará, creio que, ao assistir ao vivo no YouTube ou algum outro lugar, você vai querer ver e ter essa experiência de perto. Você não vai se arrepender e Nossa Senhora de Nazaré vai abençoar a sua vinda!
Encerro este texto trazendo uma última curiosidade: Assim como no Natal e no Ano Novo, desejamos uns aos outros que o Círio seja feliz com quem ela ama. Portanto, desde já, em nome do Dimensão Esportiva, desejo a todos vocês um Feliz e Abençoado Círio de Nazaré!
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