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OPINIÃO: 105 anos de Glória e Tradição


Reprodução: @FortalezaEC


Quando o homem mais rico do estado, um estudante e um operário decidiram fundar um clube, talvez não imaginassem o tamanho que sua criação iria atingir. Aquele simpático e democrático clube, de três cores, passaria por altos e baixos, vitórias e derrotas, decepções e alegrias, tudo isso acompanhada de uma enorme massa.


Essa massa, vibrante, aguerrida e forte, que honra as "três cores do terror" já experimentou de tudo. De brigar por Campeonato Brasileiro nos anos 60, a ser a terceira força do estado durante boa parte dos anos 70, de montar verdadeiras seleções nos anos 80 e a quase ter deixado de existir nos 90.


O fio de esperança aberto por Frank e Sandro, que foi apagado nos turnos seguintes, o gol de Frasson que não só retornou o respeito, como inaugurou a década de ouro. Com o baixinho Clodoaldo, humilhando o meio campo, sendo goleador, terror e matador, o acesso, a queda, o retorno, o lendário time de 2005, que até hoje fica na memória do torcedor.


O fracasso retumbante de 2006, com o idolo Vinicius fechando o caixão do tricolor e mandando sua ex torcida calar a boca, o descenso vindo da falta de organização e do deslumbre de medalhões. O homem raio entortando a zaga do Icasa, retomando o "manjadinho". Manjadinho esse que foi conquistado de forma ininterrupta entre 2007-2010.


Títulos que passaram por Rogerinho derrubando o presidente rival, uma quase queda em paralelo com a ascensão do craque Osvaldo, o show de Nicácio que não foi suficiente para evitar a queda, o titulo final, nos pés e nas mãos de Fabiano, que foi o suficiente para eliminar a diferença de duas divisões na final.


Os anos seguintes foram de terror. Quase queda, Oeste, Campinense, Sampaio, Macaé, o Tabu de 2 anos sem vencer o maior rival que foi derrubado por "Neymaranhão", advindo do próprio co-irmão. Os 4 anos na seca, que foram derrubados pelo mais improvavel dos heróis.


Quando nem Manoel Carlos conseguiria escrever uma novela tão emocionante, bela e envolvente quanto a história desse clube, surge um tímido lateral, que veio do fundo do banco do Grêmio, para cabecear para um desconhecido centroavante que veio do fundo do banco do Internacional, que aos 47 minutos empatou aquele que na época, foi o maior clássico da história.


O garoto do Grêmio seguiu seu rumo, enquanto isso o Fortaleza morreria na praia para o Brasil de Pelotas, venceria outro estadual e cairia para o Juventude posteriormente. Em 2017, nem a Taça dos Campeões Cearenses foi suficiente para salvar um inicio de ano desastroso. A queda para o São Raimundo na Copa do Brasil, a eliminação para o antigo rival Ferroviário, que retornava das cinzas naquele campeonato, a sofrível Copa do Nordeste, tudo culminava para um ano trágico.


Até que o time do impossível foi lá e fez novamente, com um gol salvador de Ronny contra o Moto Clube, o Leão se classificava ao mata-mata na bacia das almas. Tupi, Castelão lotado, pulsante e fervendo, e lá um garoto que se tornaria um ídolo começava a escrever sua história. Um jovem Bruno Melo e o experiente Leandro Lima fizeram os gols do conforto.


Em Juiz de Fora, o alivio. Em uma partida de Gordon Banks, Marcelo Boeck, outro que começaria a escrever sua história de ídolo no clube fechou o gol e o 1x0 do alvinegro mineiro não foi o bastante. VAI MORRER NA SÉRIE C O C*!$#%6& entoava não só Sergio Papelini, mas todo tricolor de bem.


O que viria a seguir naquela terceira divisão pouco importava, a parte do Leão já havia sido feita, agora era planejar o ano de seu centenário.


2018, o ano mágico, que começou com expectativas sendo perdidas. De Paulo Roberto Falcão para o inexperiente Rogério Ceni, do artilheiro Jonatas Belusso para o em baixa Gustavo Henrique, o Gustagol. Os anseios não foram sanados de inicio, mas a esteia arrasadora contra o Uniclinic rapidamente animou a torcida.


Gustagol virou o personagem favorito do torcedor, enquanto Ceni, com suas invenções, não definição de time titular e reserva até goleava as equipes inferiores, mas, sofria com o maior rival, e perdendo o estadual para o mesmo, saiu do Castelão com gritos de Burro, Mico e Estagiário.


Com o respaldo do até então iniciante Marcelo Paz, Ceni ficou, e com declarações de que a briga era para não cair, o medo e a raiva de passar o centenário do clube em branco pairava sobre a cabeça de todos os envolvidos.


A partir do gol salvador de Gustavo, de falta, alá Rogério Ceni, nos acréscimos contra o Guarani, o Fortaleza arrancou e fez bons resultados atrás de bons resultados, e apesar de algumas oscilações, o Fortaleza venceu seu maior título em seu centenário. O gol? de mais um personagem aleatório que nem Gilberto Braga conseguiria prever. Rodolfo, que teve em seu único gol no Fortaleza, a importância de ser o que garantiu a taça.


2019, Ceni renova, elenco se renova, tabu de dois anos sem estadual cai, o título inédito da Copa do Nordeste vem e a esperança para o Brasileirão era enorme. A goleada para o Palmeiras desanimou e aos trancos e barrancos, a equipe de Rogério Ceni catava os pontos que conseguia, até que o treinador os trocou pelo em crise Cruzeiro.


Após poucos 8 jogos, que tanto para Ceni como para o torcedor tricolor pareceram uma eternidade, O mito voltava ao tricolor, dessa vez para arrancar de vez e garantir o nono lugar na tabela, a melhor colocação de um cearense no Campeonato Brasileiro.


Em 2020 as expecativas eram altas. Porém, o ano começa com um empate amargo contra o Vitória no Barradão. A eliminação na Sulamericana aos 47 do 2o tempo, dentro de casa, com gol contra de Bruno Melo foi um baque. Pós-pausa da pandemia, mais um baque, uma eliminação vexatória no Clássico-Rei valido pelas semifinais da Copa do Nordeste.


No Brasileiro uma boa campanha, no estadual, o bicampeonato, mas, dias após o titulo Estadual, o "mito" virava traíra e abandonava o barco de vez. Deixando o promissor time nas mãos dos limitados Marcelo Chamusca e Enderson Moreira.


Após meses de sofrência, o homem com a coragem para assumir o desafio chegou, e a história está sendo escrita aos nossos olhos. Vou apenas citar as conquistas e feitos até o momento: primeira ida à Libertadores, Tri-Estadual, campeão do Nordeste invicto, semi de Copa do Brasil e uma final de Sulamericana.


Poderia me estender na história do maior argentino do mundo, mas, prefiro que vocês a vejam sendo escrita a cada momento que passa. Sobre tudo isso, apenas meu muito obrigado ao goleiro Matheus Teixeira.


Quando Alcides Santos fundou esse clube, há exatos 105 anos, ele não sabia que um tio solteirão, nos anos 70, passaria esse amor para seu sobrinho. Sobrinho esse que várias e várias vezes passou tardes gritando no alambrado do Presidente Vargas com homens de vermelho, azul e branco.


Um dia o sobrinho virou tio, e esse tio teve a sua chance de levar o sobrinho pro estádio, e ali nasceu um dos corneteiros mais chatos que essa equipe já viu, mas que apesar de tudo, jamais deixou de amar o time.


O tio, 30 anos após conhecer a loucura do Fortaleza, virou pai. E com poucos dias, esse que vos escreve já tinha seu próprio uniforme do Leão. Confesso, jamais passei um segundo da minha vida sem torcer por esse clube. Minha mãe muitas vezes brigou comigo por ter quebrado coisas, chorado, gritado, me isolado por causa desse time, mas afirmo com categoria, tudo valeu a pena.


Se hoje escolhi o curso de jornalismo, se hoje eu escrevo esse texto, se hoje eu sou um amante não só de futebol, mas de esporte, devo isso ao meu pai, ao meu primo e ao senhor Alcides Santos, que com uma simples ideia, mudou a vida de um garoto.


Sei que devido a minha profissão, poderei me afastar de quem iniciou a chama do jornalismo esportivo na minha pessoa. Fico triste? Fico, jamais comparem a emoção de sentar em um PV lotado, as 16:00 de um domingo para ver um joguinho meia boca contra o Iguatu com qualquer outra coisa no mundo.


Se hoje faço o que amo, é porque esse time teve bastante influência naquele garoto que no inicio só queria saber de carro e hoje sabe de cabeça a escalação do Fortaleza de 2005. Mesmo que o jornalista muitas vezes mascare o torcedor, o amor, o carinho, a paixão e a gratidão serão eternas e estão muito vivas em meu coração.


Sofri bullying na infância, tive pesadelos com Deola, raiva na pulada de barco de Assisinho, sentir o gosto do quase no bom Fortaleza de 2014, quebrar uma maçaneta no gol do Cassiano, ir a uma final de estadual contra o Uniclinic como primeira ida ao Castelão, tudo isso foram coisas que me calejaram para usufruir o melhor do futebol nos dias de hoje.


Se hoje existe um jornalista apaixonado, é porque antes existiu um torcedor que chorava e discutia com os amigos. Se hoje eu vejo a nata, é porque há 105 anos um grupo nada padrão de pessoas se reuniu para jogar bola e essa partida gerou a história mais linda desse planeta.


O time que faz o impossível virar apenas um termo do dicionário, o time que faz milhões cometerem loucuras, a força da galera, o maior da capital, a maior expressão de amor a um clube de futebol, a festa mais linda do futebol interplanetário, tudo isso é Fortaleza Esporte Clube.


Como diz a música que Bryan Adams covardemente copiou: Não importa onde estarei, para sempre te amarei, sempre estarei aqui, Fortaleza!


De um eterno apaixonado que tomou as mãos de um turrão e irritante jornalista, os meus mais sinceros: Eu te amo, feliz 105 anos.


*As opiniões aqui emitidas são de total responsabilidade de seus autores e não necessariamente refletem a opinião do Dimensão Esportiva.

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