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OPINIÃO: "ELE NÃO RESPONDE AO CÉREBRO, O PÉ RESPONDE AO CORAÇÃO!"


Foto: Divulgação/ Fortaleza E. C.

Neste sábado (08), fomos presenteados com a maior final de Campeonato Cearense já vista. De um lado um Fortaleza buscando um pentacampeonato inédito, do outro, um Ceará muito guerreiro, buscando retornar o rumo das glórias, e mais que tudo, valia a hegemonia total e completa do estado. A dupla entrava com 45x45 títulos em campo, um placar mínimo adicionaria um 6 no local de qualquer um dos 5.


O Fortaleza entrava em campo com a vantagem de um gol, mas que não o tornava favorito, visto que o Ceará apesar de tecnicamente inferior, era um time mais guerreiro e parecia apresentar mais psicológico.


Os clássicos dessa temporada quase que exclusivamente tinham um roteiro predeterminado: Ceará abria o placar antes dos 10 minutos, garantia um pênalti, com 20 minutos já estava com o 2x0 e a vitória garantida. Com isso, o Fortaleza ficava pilhado, abria mão de sua tática, e o jogo virava ataque contra defesa, junto de dominou a bola cruza na área e um pouco de artes marciais vindas de ambas equipes.


O jogo de sábado, parece que seguiria o mesmo roteiro. Ceará abre o placar em mais uma falha grotesca da defesa leonina, Erick, o grande algoz do tricolor nessa temporada abria o placar, e com apenas 8 minutos, a vantagem construída de maneira aguerrida nos 90 anteriores, tinha ido por agua abaixo. O roteiro parecia o mesmo, um Fortaleza nervoso, desestruturado, sem meio campo, um desastre completo antes dos 10 minutos.


Exatos 27 minutos após a abertura do placar, um lance grotesco, bizarro, horrendo, desastroso, anômalo e pedante dava o título para o Ceará. Uma falha surreal do capitão Tinga, que num recuo mal feito deu a chance de Janderson marcar um golaço, que no fim foi ofuscado pela piada de mal gosto protagonizada por Fernando Miguel, que conseguiu tomar dois frangos no mesmo lance. Estatística para poucos!


Acho que nesse momento nem o mais otimista tricolor acreditava em algo, e nem o mais pessimista alvinegro acreditaria numa ‘paçocada’ de seu time. Mas conhecemos o esporte bretão, e a caixinha de surpresa que ele é. Numa jogada que Moisés tenta cavar desde que ‘o mundo é mundo’ finalmente obteve sucesso, e num lance infantil o volante Caíque, um dos destaques dos últimos clássicos, comete um pênalti infantil. Juan Martin Lucero, o homem do tricolor, o atleta mais badalado dessa temporada, artilheiro, decisivo, e foi sendo decisivo que ele diminuiu, e colocou o tricolor de volta na partida.


A partir deste gol, não existia mais tática, bloco baixo, sistema defensivo, marcação pressão, ou qualquer outro termo da moda que você me viu usando aqui. O 2º tempo eram apenas 45 minutos do que é o futebol: puro, simples poético. 45 minutos, um gol, um misero gol definiria o quadragésimo sexto campeão cearense. 22 homens, 60 mil torcedores em loco, 4 milhões em suas casas, bares ou qualquer local que passasse o jogo, uma única bola e um único objetivo.


Esses 45 minutos finais podem ser definidos com a espetacular narração de Jorge Iggor, no gol de Lucas Moura contra o Ajax: "É NO CORAÇÃO, ELE NÃO NÃO RESPONDE AO CÉREBRO! O PÉ RESPONDE AO CORAÇÃO, AO CORAÇÃO!"


E foi no coração, que ambos os times lutaram até não conseguir mais, o coração que estava coberto por 2 escudos pesadíssimos, corações que impulsionaram os atletas a um limite que nem eles mesmos conheciam, que carregou corpos exaustos, e que garantiu o título para o leão. Foi na força do coração tricolor, que o 2x2 saiu, foi na força do coração tricolor que o titulo veio, e foi na força do coração tricolor que o grito de é campeão ganhou força.


Democrático como sempre, o futebol coroou Tinga, o ídolo tricolor, que havia falhado homericamente no 1º tempo, com uma assistência. Calebe, que em poucos segundos que na verdade foram uma eternidade para o mesmo e para o torcedor tricolor, teve toda a calma e a classe de dominar, trazer para a ‘canhota’, girar o corpo, bater, tirar de dois marcadores, acertar a trave e correr para o abraço. O Fortaleza ali garantia seu título.


Calebe, um cristão praticante, no sábado de aleluia, homenageava o maior que já andou nessa terra. Sua camisa, com os dizeres “Jesus te ama” eternizavam uma linda frase na história do clube e de seus torcedores.


Tinga, que de herói saiu para vilão, teve a sorte de ser peça crucial dos 2 estaduais mais importantes da história do Fortaleza, virava um personagem ainda maior dentro não só do clube, mas do esporte cearense.


E sendo o mais democrático dos esportes, a falha de Fernando Miguel foi recompensada nos acréscimos, com uma das mais belas e importantes defesas da história do esporte local.


Irônico como só ele sabe ser, o tricolor foi campeão com o mesmo placar, nos mesmos moldes, e com a assistência do mesmo jogador, no estadual que mudaria seus rumos quase por completo, a 8 temporadas atrás.


Como é lindo o futebol, os 2 “vilões” viraram heróis, o roteiro que pertencia ao Ceará, do psicológico forte e da sorte nos pênaltis, trocou de donos e cores, e foi totalmente tricolor. Uma história que daria tanto trabalho para ser roteirizada, que só gigantes do cinema como Scorsese, Tarantino e Spielberg dariam conta de reproduzir com fidelidade e exatidão.


O Fortaleza é pentacampeão, comemora seu titulo e vai tranquilo para mais uma temporada de muitos jogos, e quem sabe mais conquistas.


Apesar de ter sentido o gosto do doce beijo da vitória, o Ceará foi guerreiro, coeso, e vendeu caro o título. Ainda assim, tem a segunda divisão para buscar o acesso, e o tri do Nordeste em disputa. O cenário é confortável e positivo, e o ano do vozão pode e deve ser gigantesco.



*As opiniões aqui emitidas são de total responsabilidade de seus autores e não necessariamente refletem a opinião do Dimensão Esportiva.



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