TRICOLUNA: Aos haters, assistências e vitória
- joaobosconeto2005
- 27 de abr. de 2024
- 6 min de leitura
Reprodução: @fortalezaec
O Fortaleza fez história ao vencer o Boca Juniors. Entre ser o primeiro brasileiro a marcar 4 gols ou mais na equipe argentina em 30 anos, ou ser o primeiro em 17 temporadas a vencer por 4 gols em competições internacionais, foi uma vitória que mostrou consolidação do bom trabalho que veio sendo desenvolvido.
A coletividade desse elenco é algo a ser elogiado, mas alguns atletas em especifico merecem um destaque maior, seja por redenção, seja por uma boa partida em meio a criticas ou seja por mostrar na prática os motivos pelo qual é titular.
Yago Pikachu, é provavelmente o homem mais representativo da era Vojvoda tirando o próprio treinador. Crucial em 2021 e 2022, viu seu protagonismo diminuir em seu retorno, mas permaneceu sendo decisivo em momentos de precisão. O leão tem um histórico extremamente positivo com atacantes "baixinhos e bons de bola" e foi com gols lembrando o espectro dessa frase que Pikachu mostrou porque não deve ser subestimado.
Em uma noite que exalava anos 2000, com balões, faixas e uma arquibancada que mesmo sem a sua marca registrada em jogos enormes (os famosos mosaicos) não deixou de fazer a festa. Os balões, as faixas, tudo muito lindo para uma noite que viria ser especial e de certa forma, nostálgica, onde os mais antigos lembraram de como era chegar como zebra, sair vencendo o favorito e cravar uma vitória que seria ecoada por muito tempo, tudo isso com uma camisa de tons vivos, listras mais grossas e um escrete conduzido por um baixinho bom de bola.
Pós os dois gols de Lucero, que serviram para abrir e desempatar o placar, um certo Pokémon roubou a cena e deu tranquilidade para o torcedor tricolor. Em um daqueles clássicos paralelos cinematográficos, foi aparecendo de surpresa pelas costas do zagueiro, como um ataque rápido, que o camisa 22 recebeu um lindo passe, matou a bola e acertou um chute no cantinho do goleiro, cravando 3x1 nos telões.
Ainda em noite elétrica, o quarto gol sairia também de uma bola longa, que foi concluída com uma sutil cabeçada do pequeno gigante de aço. O ponta/ala/meia concluía com chave de ouro uma das grandes histórias do futebol brasileiro. Dois gols que lembraram muito alguns dos 120 feitos por outro rapaz de menor estatura e que deram muitas alegrias ao Fortaleza. Pikachu ainda lembrou os xenezies de um outro baixinho que assim como Yago, atuou pelo Paysandu e deu muito trabalho a zaga do Boca.
Tido por alguns tricolores como vilão, Pedro Augusto Borges da Costa não é um jogador reconhecido pela sua grande técnica, mas desde que chegou ao Fortaleza, conquista a comissão técnica com uma ética de trabalho impressionante. A grande verdade é que o atleta na sua função de origem, volante, deixa muito a desejar, mas desde a partida contra o Altos, Juan Pablo Vojvoda pode ter construído uma sobrevida a esforçada cria de Ubá, Minas Gerais.
Assim como Piazza na copa de 1970, Pedro Augusto saiu da "volancia" para a zaga e para a história. Com a ausência de Kusevic e a escassez de zagueiros centrais, coube ao então volante assumir a bronca de substituir o melhor defensor da equipe na temporada. Além do tipo físico, as funções em campo seriam parecidas: Dar o primeiro combate caso os volantes deixem a bola passar, preocupação na bola aérea e ser o segundo nome na saída de bola.
Oscilando entre zagueiro central quando o time utilizava uma saída 3 - 2 e zagueiro pela direita quando o time se compactava em uma linha de 4 jogadores, Pedro Augusto fez uma partida muito correta e provavelmente a sua melhor com a camisa do Fortaleza. Muitos apontam alguns mínimos erros, principalmente na questão do tempo de bola, mas todos ossos do oficio de aprender uma nova função.
Janson, Merentiel, Langoni, pouquíssimos êxitos do trio de atacantes do Boca em cima do camisa 28, mostrando uma uma estabilidade impressionante dentro de uma partida dessa magnitude e tendo em vista o histórico do jogador enquanto ativo do Fortaleza.
No macro da partida, Pedro Augusto fez o dever de casa de todo grande zagueiro: Foi competente, correto e bastante discreto. Longe de ser um sonho na posição, seu ímpeto em querer se redimir com a torcida do Fortaleza (Mesmo que ele leve a culpa sozinho por protecionismo com outros envolvidos) deu a ele a chance de se redescobrir no futebol e quem sabe, abrir novas portas no futebol como um todo.
O último e não menos importante personagem dessa história é um jogador ex Boca! Tendo atuado pelo River contra o Fortaleza em 2022, Tomás Pochettino chegou como uma das grandes contratações tricolores para o ano passado. Com muita técnica e um passe longo fora da curva, 'Poche' sofre com oscilações por ter se acostumado a jogar em uma posição muito especifica: O meia aberto.
Muito comum nos 4 4 2 noventistas, o meia aberto era um hibrido entre ponta e "camisa 10", onde ele criava o jogo entre o meio campo e a lateral direita, chutando de fora da área e distribuindo passes longos. Talvez o caso mais famoso e elucidativo de sucesso na função tenha sido o britânico David Beckham.
Até por isso, foi subutilizado no River Plate, uma vez que não era veloz o suficiente para jogar de ponta direita e nem forte o suficiente para ser um volante. Superior a sua passagem no Talleres de Córdoba, onde se projetou para o futebol sul-americano, Tomás vive sua melhor fase em solo alencarino. Mesmo jogando de maneira "reversa" ao que fez a carreira toda, nunca teve números e uma minutagem tão alta no futebol profissional, mesmo que esse bônus venham junto de muitas criticas, geralmente infundadas.
Tomás Pochettino é vitima da crença popular em um "ídolo" que não existe. Eu, você, todos nós que gostamos de futebol crescemos com a máxima de que: Todo jogador argentino é extremamente raçudo. Essa afirmação só está errada por ser extremamente ampla, uma vez que Lucero, Britez, Cardona, Guiñazú, Flaco Lopez, Gabriel Mercado e alguns outros argentinos do futebol brasileiro são muito raçudos, porém, Mugni, D'Alessandro, Orellano, Conca e outros "hermanos" não eram exatamente conhecidos por serem grandes corredores.
O jogador argentino raçudo e mordedor é uma coisa, o meia camisa 10 argentino é outra totalmente diferente. Me arrisco a dizer que apenas Angel Di Maria une o melhor dos dois mundos, uma vez que Lionel Messi em muitas oportunidades foi "um a menos" no jogo sem bola. O rotulo de "argentino sem sangue" atrelado ao meia tricolor é nada mais nada menos que a materialização da frustação de não ter um jogador que não existe.
Pochettino nunca foi o "Simeone na defesa e o Aimar no ataque" e sim um meia muito voluntarioso e completo nas duas fases do campo. Se o camisa 7 fosse esse jogador ideal do imaginário de muitos tricolores, ele estaria na Europa e não no Fortaleza. A raiva desnecessária que é atribuída a um jogador muito útil pelo fato dele não ser um boneco de vídeo game é desproporcional e atesta uma ingratidão com um atleta do clube.
Com três assistências de almanaque, alguns bons desarmes e sendo a principal peça criativa do Fortaleza no jogo, Tomás mostrou que apesar de não ser um "Gallardo", é muito completo e tem muita inteligência, aliada é claro a uma qualidade técnica acima da média.
No primeiro gol ele conseguiu acionar o Lucero no limite da linha do impedimento, no segundo, um cruzamento na medida e o terceiro, a mais bonita assistência, onde o meia achou o meio termo entre um lançamento e uma virada de jogo, colocou Pikachu de frente para Romero e partiu para o abraço. Atuação de almanaque de um dos melhores jogadores do time no ultimo mês.
Desde que voltou ao meio central, Pochettino mostra que as criticas são exageradas, os apelidos são calúnias e que em matéria de qualidade técnica, ele tira nota 10. Não é um Zico, mas também é uma evolução há uma série de meio campistas no mínimo "duvidosos" que o Fortaleza teve nos últimos 20 anos.
Vitória histórica, bonita festa e grandes atuações, todo um roteiro que corresponde a grandeza do momento e dos clubes que protagonizaram. Sem dúvidas uma das maiores vitórias do Fortaleza, não só por ter sido uma literal vitória, mas por ter permitido ao seu torcedor ver um evento que a pouco tempo atrás parecia sonho.
Muitos torcedores dos times ditos como "G12" vão menosprezar o tamanho dessa vitória, mas para quem entende os males que coisas como o Robertão, o Clube dos 13, Copa União e outras artimanhas feitas pelos clubes do Sudeste para se perpetuarem no poder, vão saber interpretar o tamanho do triunfo tricolor perante os argentinos.
Ao Fortaleza os parabéns, aos atletas citados, os meus mais sinceros votos de constância nessa grande fase e a você que leu até aqui, meu muito obrigado.
*As opiniões aqui emitidas, são de total responsabilidade de seus autores e não necessariamente refletem a opinião do Dimensão Esportiva.
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